Jesus, no ápice das suas orientações aos seus discípulos e às multidões, faz uma evocação que indica a importância da poesia do viver. Ensinamentos densos, reunidos no Sermão da Montanha, Evangelho de Mateus, uma Carta Magna. Os ensinamentos contêm metas existenciais audaciosas e exigentes, como amar os inimigos e perseguidores. Vivências que requerem uma resiliência humana e espiritual a ser alcançada por meio de investimentos: exercícios cujo ponto de partida muito ultrapassa a lógica da simples, e indispensável, racionalidade. O Mestre delineia um percurso discipular que inclui a ternura advinda da poesia do viver. Eis o enorme desafio: não pensar que a valorização da vida significa a defesa cega de certas situações, a partir de medos que levem a atitudes mesquinhas. O egoísmo enjaula corações na disputa fratricida e na insana busca pelo acúmulo, no anseio de ajuntar tudo para si, perpetuando cenários de desigualdades, de manipulações, para se obter fácil enriquecimento. Com essas dinâmicas, agigantam-se as indiferenças, mesmo diante das multidões passando fome no mundo todo.

Jesus conhece o tamanho do desafio existencial de seus discípulos na obediência das suas lições. Não basta a importante disciplina na obediência às leis ou normas, ancoradas na fidelidade moral, para que seja reconhecida a dignidade maior do ser humano. Jesus convida, então, aqueles que lhe seguem a buscar a poesia do viver. Assim, podem se capacitar, no dia a dia, para se tornarem instrumento a serviço da construção e promoção da vida plena, em todas as suas etapas. Veja o simbolismo poético da contemplação proposta, quando o Mestre convida: “Olhai os pássaros do céu, não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros… olhai como crescem os lírios do campo. Não trabalham, nem fiam. No entanto, nem Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um só dentre eles”.

O conhecedor mais credenciado do coração humano, Jesus Mestre, ensina: a sabedoria própria da poesia do viver nasce de uma contemplação que antecede números, manuseio de instrumentos ou dados. Essa contemplação unge mentes e corações com lições e sensibilidades essenciais a cada pessoa. A poesia do viver não é uma simples brisa para amenizar a dureza destes tempos. É uma fonte de sabedoria que pode alavancar percepções qualificadas, corrigir lógicas distorcidas, apontar o rumo para que sejam encontradas soluções urgentes, respeitando a vida humana na sua dignidade. Eis, assim, o desafio: recuperar a poesia do viver, para se dar conta de caminhar sem perder a direção, neste tempo em que a humanidade vive o processo de grandes transformações culturais, com incidências sociopolíticas, econômicas, educacionais e religiosas.

Uma grande movimentação antropológica-cultural está em curso, como placas tectônicas que se deslocam provocando instabilidades, reconfigurando territórios. Diante dos processos de transformação que incidem na civilização contemporânea, não podem ser perdidos valores e princípios essenciais. Vive-se a dinâmica de êxodo, mas a migração da humanidade não pode representar o abandono de certos tesouros, sob pena de o ser humano chegar mais empobrecido no tempo novo em construção. E não basta salvar a própria “bagagem” durante a travessia. A prioridade é o bem comum e todos estão convocados a contribuir com a sua edificação. Nessa perspectiva, a poesia do viver pode garantir percepções que curam destemperos e desequilíbrios – ameaças que levam a fracassos humanitários e ecológicos, mas que, cada vez mais, lamentavelmente, contaminam muitos processos da vida em sociedade. A viragem em curso, para fazer jus às conquistas científicas e tecnológicas, patrimônios da inteligência humana, não pode balizar a sociedade contemporânea em estreitamentos que comprometam o dom da vida e a beleza do viver.

A urgência de se enfrentar lógicas perversas, na política e na economia, na cultura e até mesmo na religião, pede o indispensável resgate da poesia do viver. Sem a poesia do viver crescerá, cada vez mais assustadoramente, o número daqueles que desistem da própria vida, de segmentos que buscam apenas a própria proteção sem se dedicar ao bem comum, de atitudes frias que segregam os pobres. Crescerá a tendência de se perseguir vitórias a qualquer preço, inclusive com artimanhas e operações perversas, de se buscar o próprio bem pela via da manipulação, sem sensibilidade humanística. Nesse cenário obscuro, o coração humano, mesmo diante de eventuais bens acumulados, lugares conquistados, títulos obtidos, será incapaz de exercer adequadamente a regência da própria vida.

É hora de investir e exercitar-se na poesia do viver para fazer brotar uma sabedoria espiritual que permita reconhecer o sentido da vida, conduzindo o ser humano ao cultivo da fraternidade. Assim, pode-se recuperar o genuíno sentido de pátria – lugar de todos os irmãos e irmãs, iguais nas diferenças. Com a poesia do viver, consegue-se reconhecer que a vida é vivida melhor quando há simplicidade, e que se ganha muito com a generosidade solidária. Ajuda a cultivar a poesia do viver a indicação da escritora Cora Coralina: “Não te deixes destruir… ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória de gerações que hão de vir. Esta fonte é para uso de todos os sedentos. Toma a tua parte. Vem a estas páginas e não entraves seu uso aos que têm sede.” Que a vida se ancore na poesia do viver.

 

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).