Os LGBTQ+ e o Caminho Promissor do Sínodo
Luís Corrêa Lima
O Sínodo dos Bispos, organismo permanente da Cúria Romana, publicou neste ano um estudo sobre questões emergentes, abrindo um caminho promissor para pessoas LGBTQ+ na Igreja. Intitula-se: “Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento compartilhado de questões doutrinais, pastorais e éticas emergentes” (aqui). Este é um desdobramento da XVI Assembleia Geral deste organismo, que se reuniu em 2024, com o tema “Por uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. Uma grande novidade é que o estudo vem acompanhado de dois testemunhos de homens gays, casados, com vida eclesial e sacramental, que estimam a própria orientação sexual.
Essa publicação do Sínodo não se propõe a ser um documento de autoridade ou magisterial, mas a apresentação do trabalho solicitado a um grupo durante o processo sinodal para examinar o tema, a fim de promover um exercício de discernimento nas igrejas locais. A intenção é fornecer uma ajuda para que cada comunidade e a Igreja como um todo assumam pessoalmente o compromisso de reconhecer e promover o bem com o qual Deus opera na história e na experiência das pessoas. É algo que merece muito ser lido e refletido.
Nas bases teológicas deste estudo está a convicção de que a verdade universal sobre o ser humano não é determinável historicamente de uma vez por todas, mas se dá nas formas concretas das diferentes culturas. Ou seja, em um diálogo incessante no qual culturas, comunidades e pessoas progridem na troca de dons, impulsionadas pela busca da verdade e da justiça, à luz do Evangelho. Deste modo, ouvir as práticas à luz do Evangelho não significa julgá-las de acordo com uma regra estabelecida de uma vez por todas, mas reconhecer o poder cada vez maior do Espírito Santo atuando na história para lhes dar uma interpretação que se torna efetiva. Nessa linha, a reflexão teológica procede da experiência do bem inscrita no senso da fé dos fiéis.
Ao abordar a homossexualidade, o estudo menciona o documento da Pontifícia Comissão Bíblica, de 2019, sobre antropologia (aqui). Essa Comissão constata que diversas afirmações bíblicas, em âmbito cosmológico, biológico e sociológico, foram gradualmente consideradas ultrapassadas pela progressiva afirmação das ciências naturais e humanas; e que, analogamente, alguns deduzem que uma compreensão nova e mais adequada da pessoa humana vai além da exclusiva valorização da união heterossexual, em favor de uma acolhida da homossexualidade e das uniões homossexuais como expressão legítima e digna do ser humano. Em seguida, a Comissão analisa os textos da Bíblia usados para condenar a prática da homossexualidade, incluindo aqueles mencionados no Catecismo da Igreja Católica (Gn 19,1-29; Rm 1,24-27; 1Cor 6,10; 1Tim 1,10). A análise traz uma interpretação diferente, não condenatória. Isto aponta para a necessidade de uma revisão da doutrina, algo que não é simples dada a natureza polêmica do tema e a complexidade da Igreja Católica.
Após mencionar esse documento do magistério, o estudo do Sínodo dos Bispos cita outro documento magisterial, de 1986, no qual os bispos são convidados a providenciar assistência pastoral às pessoas homossexuais de suas dioceses, em plena conformidade com o ensinamento da Igreja fundamentado nas Escrituras e na Tradição viva da Igreja. Isto hoje requer levar em conta novas interpretações da Bíblia em documentos oficiais, bem como considerar a Tradição não como um legado estático, mas como uma realidade viva que cresce e evolui.
Neste contexto, o estudo do Sínodo lança a pergunta sobre como podemos compreender mais profundamente a experiência humana e moral dos fiéis que sentem atração pelo mesmo sexo, recorrendo não apenas à luz da Palavra de Deus, mas também a uma abordagem transdisciplinar. Mencionam-se os que são rejeitados por pertencerem à comunidade LGBTQ e os muitos equívocos existentes na comunidade cristã, enraizados em atitudes de homofobia e transfobia.
No primeiro testemunho apresentado, o autor sente o chamado feroz e amoroso de Cristo à própria integridade e plenitude para não se ferir nem ferir os outros, pois seu próprio corpo é criado e amado por Deus. Ele não ignora as cicatrizes que carrega. Testemunhou os efeitos devastadores das “terapias de conversão” e a desestruturação de famílias, o que lhe pareceu um ataque à criação sensível e irrepreensível de Deus. Constata que seu verdadeiro pecado não era o seu amor, mas a sua falta de confiança no desejo divino por uma vida plena para si.
No segundo testemunho, o autor está convencido de que a sua sexualidade não é uma perversão, um transtorno ou uma cruz, mas um dom de Deus. Ele considera seu casamento feliz e saudável, em que floresce como um católico assumidamente gay. Reconhece que foi preciso passar por anos de oração, terapia e convivência com uma comunidade acolhedora para chegar a esse ponto, mas agradece a Deus pela sua sexualidade e condição de vida. Para ele, ler a Bíblia em seu contexto o fez perceber que as interpretações tradicionalistas pouco têm a dizer sobre os relacionamentos contemporâneos e vitais entre pessoas do mesmo sexo. Ele leva a sério sua experiência e as experiências de outras pessoas LGBTQ como a manifestação da obra de Deus. Está convencido de que a Igreja precisa dos LGBTQ tanto quanto esses precisam da Igreja.
Esse autor fala do catolicismo que o mantém católico por acolhê-lo como é. Ele conhece muitos padres que foram atacados por apoiarem pessoas LGBTQ. Imagina-os como Maria, protegendo-as sob seu manto enquanto são atingidas pelas flechas odiosas da homotransfobia. Ele afirma não ter palavras suficientes para expressar a diferença que esses líderes religiosos, alguns dos quais abertamente gays, fazem na vida das pessoas. Eles salvaram a sua vida espiritual e a de centenas de outros católicos LGBTQ que conhece. É interessante notar uma publicação do Vaticano elogiar padres assumidamente gays.
Na busca do diálogo incessante que progride na troca de dons, o estudo do Sínodo trilha o caminho aberto pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), em sua doutrina sobre a liberdade e a autonomia da consciência. Na consciência está o santuário de cada ser humano, no qual ele se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais seres humanos no dever de buscar a verdade, e de nela resolver as questões morais que surgem na vida individual e social. Ninguém deve agir contra a própria consciência e nem ser impedido de agir de acordo com ela.
Sendo assim, em pessoas LGBTQ que buscam a verdade e são fiéis à própria consciência, Deus efetivamente se manifesta. No relato de suas histórias de vida, o Espírito de Deus fala à Igreja e à sociedade, interpelando-as sobre esta realidade cheia de conflitos e de oportunidades, onde não raramente há repúdio e demonização. A Igreja de fato precisa das pessoas LGBTQ tanto quanto elas precisam da Igreja. O Corpo de Cristo fica incompleto sem esses membros. Que Deus abençoe esse promissor caminho sinodal.
Luís Corrêa Lima é padre jesuíta, professor da PUC-Rio e autor de “Teologia e os LGBT+”.